Biólogos demonstram que espécie de ave australiana
compreende cantos de alerta de outras espécies para poder escapar de possíveis
predadores
Um passo em falso, uma chacoalhada nos galhos, um ponto no
horizonte avançando e aumentando em alta velocidade na sua direção. Aves podem
facilmente identificar sinais como esses como uma ameaça e, instintivamente,
“tocar o alarme” para avisar sua comunidade que há perigo à espreita.
Mas como já imaginavam os biólogos, as aves não dependem só
a experiência do perigo para entender que há ameaças ao seu redor. Um estudo
recente, publicado pela Current Biology, mostra que uma espécie de ave
encontrada na costa leste da Austrália desenvolveu a habilidade extra de
compreender o canto de alarme de outras espécies de pássaros. Assim, ela não
precisa depender do contato direto com a ameaça para evitá-la, porque escutou
outro grupo de aves, de espécie distinta, avisando que ela existe.
A espécie Malurus cyaneus foi estudada por biólogos de
universidades australianas e do Reino Unido. De acordo com o estudo, elas não
precisam experimentar a ameaça diretamente pois conseguem entender cantos
“estrangeiros”. Ou seja, não precisam chegar a ver o predador ou mesmo a
espécie “estrangeira” que canta o aviso para entender e fugir sob o anúncio de
perigo.
Essa capacidade de entender a ‘língua’ de outras espécies já
era esperada pelos cientistas, mas esse estudo é um dos primeiros a demonstrar
esta habilidade. “Se elas aprendessem apenas na presença do predador, isso
seria bastante perigoso”, diz Andrew Radford, co-autor do estudo e biólogo da
Universidade de Bristol. “A capacidade de aprender ao associar sons com o
significado faz sentido, biologicamente falando.”
No estudo, as aves Malurus cyaneus foram expostas aos
alarmes de perigo reproduzidos por um computador (sem a presença da espécie que
estava cantando) e por um grupo de Acanthiza uropygialis (com sua presença).
Durante a primeira exposição aos sons, os Malurus cyaneus
não reagiram. Mas com o passar dos dias, e associando com outros sons
familiares, as aves procuraram por abrigo em 81% das vezes enquanto ouviam os
outros pássaros; e 38 das vezes quando ouviram o som gerado pelo computador.
“Cantos de alarme avisam sobre predadores, mas aqui os
pássaros aprenderam o significado do chamado
através de avisos de outras espécie, sem precisar ver o predador”,
afirma Robert Magrath, biólogo da Universidade Nacional da Austrália. “Isso
significa que este é um tipo de ‘aprendizado social’, onde indivíduos aprendem
com os outros ao invés de aprender com a experiência direta. Neste caso, é até
mais indireta, porque eles só precisaram ouvir e não ver os pássaros que
cantavam os familiares alarmes.”
Animados com o resultado, os pesquisadores acreditam que
essa característica é comum entre a maioria das aves. “As Malurus cyaneus são
inteligentes, mas elas não são a espécie mais inteligente de todas”, diz
Dominique Potvin, líder do estudo. “Então, eu acho que nós seguramente podemos
generalizar estes resultados à outros pássaros, especialmente outros pássaros
canoros[cantantes].”
Outros estudos têm revelado o quão complexo esse sistema de
cantos pode ser. Os chapins, aves encontradas na América do Norte, por exemplo,
podem indicar o tamanho do predador que se aproxima através do seu canto. Além
disso, muitas espécies podem escutar outros tipos de pássaros, ou até de tâmias
(um roedor da família dos esquilos), e entender que há perigo na vizinhança.
“Nós sabíamos antes que alguns animais por traduzir o
significado de ‘línguas estrangeiras’ de outras espécies, mas nós não sabíamos
como o ‘aprendizado da língua’ surgia”, explica Radford. Segundo o estudo, não
se trata apenas de uma habilidade inata, mas também adquirida através da
convivência com outras espécies de aves e com a associação do alarme com a
presença do predador.
Com informações do Smithsonian.
Via | Galileu

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